10 de Maio de 2011

Elogio da normalidade



Não sei exactamente quando é que a previsibilidade passou a ser considerada um pecado capital, mas hoje em dia é difícil não cair em tão horrendo delito. Faça-se o que se fizer, haverá sempre alguém que nos tenta dominar e aos seus medos acusando-nos de ser o que não querem rever em si: o regular; o constante; enfim, o chato.  O companheiro de borgas que acordou excepcionalmente cedo desdenha: “Ainda a dormir? És tão previsível!” A amante que ouve a resposta justa a uma acusação injusta: “Já sabia que ias dizer isso. És tão previsível!”. E o que nos dizem os colegas de trabalho a quem não aturámos o 527º abuso da nossa confiança? Previsivelmente, “és tão previsível”. Compreendo-os. Desprezamos a previsibilidade pequeno-burguesa dos nossos pais (mas não a regularidade com que o prato aparecia magicamente cheio à hora das refeições) e o excesso de rigor dos patrões (mas não a jorna no fim do trabalho feito). Os heróis do nosso fascínio não têm regras, não têm rotinas, não têm padrões. Nunca se sabe qual é o seu próximo passo.
Já eu, quando trabalho à noite, mudo a minha perspectiva. As noites já estão suficientemente cheias de imprevisibilidade, obrigado. À noite a regra é o excesso, os eventos absurdos sucedem-se com uma regularidade cronometrada, e a ordem de serviço é o caos. Qual é o fascínio do bêbado que desata a gritar e a bater na companheira? Ou da casa-de-banho que alagou? De abrir uma caixa de vinho que afinal está estragado? Copos que se partem, clientes que fogem sem pagar, fashion-victims a puxarem os cabelos uns aos outros, carteiristas que se esgueiram com malas de senhora? E as festas? Dantes uma festa era o meu aniversário ou dos meus 2 únicos amigos e o fim das aulas. Agora dou por mim em festa porque um DJ que não conhecia há 2 dias atrás está a pôr discos nessa noite. Ou porque chegou o João ou a Joana. Festa. Porque sim. Festa. Que seca, hoje não há nenhuma festa!!! 
Daqui deste lado do balcão, quero fazer um elogio da normalidade e da previsibilidade. Eu gosto é que que o fornecedor chegue à hora combinada e deixe as bebidas requisitadas. Gosto que os clientes peçam uma bebida e paguem na hora. E, tal como os habitantes de Konigsberg acertavam os seus relógios pela hora do passeio vespertino de Kant, gosto de saber que é uma da manhã porque o Diogo chega pontualmente ao bar e pede a sua imperial. Gosto que a noite decorra sem problemas. Sem heróis da imaginação, sim, mas sem problemas. Ah, e chegar a casa com os nervos inteiros, o que é muito bom. Como seria de prever.





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