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O guia da sétima colina de Lisboa - Bairro Alto, Bica, Cais do Sodré, Chiado, Príncipe Real, Rato

              
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May 28, 2012

blog postUma noite na Casa do Pátio – parte III (a noite)

De regresso ao Pátio das Parreiras, sento-me na mesa de madeira onde os hóspedes tomam o pequeno-almoço nos dias de tempo quente. Ouço passos: um verdadeiro residente que entra em casa. A roupa estendida em tons de castanho do Outono que já foi acusa a presença daqueles que aqui moram de facto. Hoje, sou um deles.

Os edifícios em torno do pátio abrigam do frio e fazem dos sons nocturnos da cidade não mais do que um burburinho longínquo, abafado pelo correr da água na fonte recente.

A Lua que enche está prestes a despedir-se do céu que se vê daqui e este, embora claro, deixa à mostra algumas estrelas.

O pátio é agora adornado por um limoeiro dentro de um grande vaso de barro. Está carregadinho de limões. Ouve-se o camião do lixo a rasgar a Travessa do Caldeira. Ao lado da mesa, um telheiro por onde trepa, envergonhada, uma parreirinha embrionária. Ou, como diz o João, «não fosse este o Pátio das Parreiras».

Admiro a água-furtada em que se insere a janela do meu quarto. Deliciosa como tantas que namoro de nariz no ar. Hoje, esta é minha.

Um gato reina sobre os telhados, na imponência da sua elegância felina. Os vasos com plantas por todo o espaço são mais do que muitos, e até os tanques de lavar a roupa – agora pintados de cores garridas – se enchem de terra que é berço de flores.

O gato desce para um telhado mais em baixo e chega ao chão. Mas não se aproxima, tão-pouco reconhece a minha existência. Até agora. Não deve ser hábito ver alguém sentado a esta mesa a escrever à meia-noite. Ou a qualquer hora da noite, na verdade.

Já no quarto, vejo o pátio da janela. Da outra, o Zimbório da Estrela e os telhados de Lisboa. Com o vidro aberto, ouvem-se as vozes dos vizinhos na rotina de todas as noites, mas as janelas fechadas deixam-me a sós com este quarto maravilhoso, onde quererei voltar. Cheira a morangos e o ambiente deixa deixa o frio à porta.

O quarto enche-se de opostos, gerações de outras vidas que se cruzam em forma de gavetas e reflexos de brilho. Escuras ligas metálicas seguram as diagonais do tecto, num carimbo de negro sobre a alvura das paredes. De um lado da cama, uma mesa-de-cabeceira antiga de madeira, alta, de onde me sorriem tempos antigos no espaço reservado ao vaso de noite que, com pena, verifico não existir. Do outro lado, talvez séculos mais tarde, outra mesinha, redonda, velada de espelhos, de onde uma luz de metal ilumina as linhas que trazem o sono.

A cómoda, também de madeira antiga, serve de chão a um pequeno ecrã dos dias de hoje, que me explora o hábito cuscuvilheiro de querer saber o que outros imaginaram (muitas vezes com mais afã, confesso, do que o de querer saber o que de facto acontece). A seu lado, um Castelo das Moças e dois copos de pé alto. Tinto, apetecível, o fim perfeito para a noite (quase) perfeita. Quase porque me faltas tu, claro. E quase, também, porque, sovina, não arrisquei a sacar a rolha. Vai-se a ver, era oferta da casa!

Do frigorífico honesto – à disposição de todos na sala comum – acabo por não trazer nada (afinal é só uma noite), mas faço um chazinho para antes de dormir e guardo uma peça de fruta para o ratinho que mora na barriga.

A casa-de-banho, com o seu tecto inclinado, é toda ela uma delícia, com um toque de garrido rosa-choque em forma de tampo de sanita.

No chão, antes da recolha ao leito, um manto de fofura para os pés. Sobre os lençóis, um monte de almofadas digno de uma princesa. Adoro a minha pequena mansarda, este sótão de quarto num telhado de Lisboa. O sono já pesa nas pálpebras e nas pernas, mas só quero continuar a apreciar cada pormenor deste pedacinho de lar no coração da cidade que hoje é só meu. Não quero adormecer. Passar a noite neste quarto, neste pátio, é mágico... É ouvir as ruas velhas da cidade a adormecer em simultâneo, é sentir nas paredes o eco remoto de amores sem tempo, é adivinhar as conversas de vizinhas de outras épocas, quando naqueles tanques, lá em baixo, ainda se lavava a roupa.

 




May 11, 2012

blog postUma noite na Casa do Pátio – parte II (o jantar)

Depois de conhecer aquela delícia de quarto, e desejosa agora de outro tipo de delícias, dirijo-me ao Bairro Alto para a refeição prometida n’O Cantinho das Gáveas.

Do Largo de Camões (que poucos conhecem como praça, apesar de ser o que está escrito nas placas), são três minutos até ao 82 da Rua das Gáveas, ainda vazio. É cedo, passeio-me então pela Rua da Misericórdia, cujos edifícios não me canso de admirar, até ao largo que julgava ser-lhe homónimo, e que afinal se chama Trindade Coelho. No regresso pela Travessa do Poço da Cidade, abrando o passo: um respeitável senhor de idade faz de retrete a parede contígua à esquina do restaurante. Que agradável. Manchas de alívio e de preguiça que as paredes do Bairro Alto conhecem tão bem...

Sou a primeira a chegar ao restaurante, que entretanto começa a encher-se de vozes e sotaques além-fronteiras. Mesas de madeira escura com tampos de pedra rosada e caminhos de mesa aos quadrados brancos e azuis guardam com orgulho milhares de horas de conversa à refeição.

O serviço é de uma gentileza das antigas. Para entrada, o creme de marisco. Demasiado apurado para mim, mas com a vantagem de aumentar a avidez na procura do vinho verde da casa, por sinal bastante razoável. Numa mesa à minha direita, um casal divide uma salada de polvo e um jarrinho de vinho branco. Ele fala português, mas comunicam agora numa língua que não consigo identificar. Atrás de mim, mistura-se o inglês com o espanhol em torno das inquestionáveis imperiais. Ao fundo, dois rapazes, uma água e um jarrinho de vinho tinto. Mal acabo de comer a sopa, entram duas portuguesas. Até agora, somos as únicas.

Para prato principal, peixe grelhado? Arrozada de bacalhau e gambas? Secretos de porco? Chama-me a atenção o arroz de peixe com gambas que, pouco depois à minha frente num tachinho de metal, conquista o olhar no levantar da tampa. Gambas, salmão, espadarte e polvo: olho para o tacho com pena, não serei capaz de comer tudo.

Mais dois rapazes, portugueses. A quota de ocupação nacional compõe-se. Enquanto um vai à casa-de-banho, o outro atira-se ao pão e à manteiga, antes sequer de abrir a lista. E o queijinho curado, como recusar?

– Está muito saboroso – ouço atrás de mim. (Só não consigo ver o quê.)

O meu prato, esse, está óptimo.

– Chega? – pergunta-me o Sr. Ernesto.

– Chega e sobra! – digo eu, mas afinal duvido de que sobre mesmo.

– Coma o peixe, deixe o arroz – aconselha-me.

Parece-me que os daqui do lado estão a comer os secretos, acompanhados de batatas fritas às rodelas, daquelas como deve ser. E saem mais duas imperiais.

Os que chegaram logo depois de mim arrumam os talheres e saem enfim do restaurante. Admirar-me-ia se fosse eu a primeira a fazê-lo. Estou ainda de prato à frente, isto é mesmo bom. E eis que entra uma cara conhecida, como sempre é de esperar nesta grande aldeia de cidade qual enorme novelo de um só fio.

Dentro daquela minha teoria de que o mais importante na vida são não só as pessoas, mas também os lugares, chego agora à conclusão de que o Bairro Alto (e toda a sétima colina) é um desses lugares. Quando por cá ando, o olhar sorri, sempre.

Acabei de comer! Os últimos estrangeiros abandonam o recinto. Somos só tugas agora. Já passa das dez e estou ansiosa por voltar ao quarto que só é meu por uma noite.

– Não quer café? Nem um bagaço? – Não quero mais nada, estou satisfeita.

No balcão, toca um telefone:

– Estou, sim, boa noite, restaurante Cantinho das Gáveas, tenha a bondade.

Uma gentileza das antigas.

 




May 1, 2012

blog postUMA NOITE NA CASA DO PÁTIO – PARTE I (A CHEGADA)

Subo ansiosa as escadinhas da Calçada do Carmo e continuo depois até ao Chiado, espetando o queixo no ar aqui e ali perante os magníficos e intemporais edifícios deste bairro, que sempre me surpreendem. Um pulinho pela Rua do Loreto e estou no Adamastor, esse local de mil sorrisos, onde retorno como quem regressa a um lar de calor e saudade. Fim de tarde, cheio de gente, como flores em pequenos molhos pela relva, pelos bancos, pelo chão. Litrosas, livros de lombadas volumosas, dedos que enrolam gulosas mortalhas umas atrás das outras... O Sol põe-se e a ansiedade acalma. Desta vez, venho para ficar.
Chego à Casa do Pátio como uma menina pequena no primeiro dia de escola e sou muitíssimo bem recebida pelo sorriso do João, lisboeta de origens beiroas, numa sala que é uma carícia no rosto de quem entra. Mobilada em madeira, chama a atenção um móvel de tipógrafo, forrado a mapas, guias e livros antigos de exercícios de francês, que o João mostra com orgulho, e logo me convida a sentar para o check-in personalizado com que recebem todos os hóspedes.
Aqui, quem vem traz uma história que os que cá estão querem sempre ouvir. Quem chega sente a surpresa de ser logo tratado pelo seu nome e, entre a conversa de boas-vindas e as partilhas ao pequeno-almoço, aperta-se o abraço desta casa que nos acolhe como família. «Não é um quarto, são pessoas», diz o João. E para qualquer coisa que seja precisa: «Nós estamos sempre cá.»
Uma chaleira aquece a água para o meu chá de menta numa recepção que, desta feita, é em português. Em cima da mesa, mapas e mapinhas de Lisboa, namoramos a cidade no papel. Santa Catarina, o Bairro Alto, a vista do Elevador da Bica, o Largo de Camões, o Quiosque do Refresco, A Brasileira, A Vida Portuguesa... Uma subida ao último andar dos hotéis Regency e Bairro Alto, pelo que o olhar alcança, uma viagem no Elevador de Santa Justa, uma ginjinha no Rossio, um jantar do outro lado do rio para ver Lisboa inteira de fora... O Miradouro de Santa Luzia, com o seu painel de azulejos, o Miradouro da Graça, a Feira da Ladra, Alfama... Para meu espanto, uma visita à cave do MUDE, na Rua Augusta, onde ainda se encontram os cofres originais do Banco Nacional Ultramarino, e outra ao nono andar da Pollux, na Rua dos Fanqueiros, para olhar nos olhos o Convento do Carmo e soprar sobre os telhados da Baixa.
Finalmente, o meu quarto. Ribatejo, nome de região vinícola, como todos os outros da Casa do Pátio. Um quarto numa água-furtada! Adoro águas-furtadas, como promessas vaidosas no topo dos edifícios. Hoje, vou poder ver o lado de dentro! Mal subo ao quarto, fico com vontade de dormir nele durante uma semana. O branco da cama contrasta com o padrão escuro e pesado das cortinas que prometem descanso, os tectos inclinados acolhem-me num lar de tranquilidade imediata. O Inverno, que ainda é quando escrevo, fica lá em baixo. Aqui, cheira a essência de morango.
 
 




April 9, 2012

blog postMinúscula aranha com porte

Levanto os olhos do jornal e reparo no tampo da mesa de café de um castanho claro, raiado por imperceptíveis linhas brancas. Fixo o olhar numa impureza que parece voar com o impulso da brisa de Verão, que entra pela porta entreaberta. Porém, não voa apenas, também anda. Vejo com maior atenção e verifico que se trata, afinal, de uma pequena aranha. Pequena? Que digo eu?! Minúscula! É uma minúscula aranha exactamente da mesma cor que a mesa de café. Parece ser um filhote de aranha de uma raça já de si mínima. Não lhe consigo ver a cara. Ou o focinho. Ou o que quer que segure aqueles enormes olhos de aranha num corpo minúsculo. Aliás, não consigo ver nada, a não ser o que parece ser um pequeno grão de areia com oito patas. Não as conto, sei apenas que as aranhas – minúsculas ou não – têm oito patas. Sigo-a e procuro colocar-me no seu lugar. Aquela enorme mesa parece ter degraus intermináveis, que se transformam em obstáculos quase intransponíveis. Digo quase, uma vez que ela os transpõe com extrema graça e leveza.

No que deve ter sido um minuto, atravessou a mesa de café. Afasto com cuidado as folhas do jornal, para não provocar uma ventania.

Continuo a fixá-la embora, por vezes, tenha de piscar os olhos para voltar a vê-la pois, de tão pequena que é, confunde-se com a mesa. Atravessa-a e começa a aproximar-se perigosamente do seu fim. Não sei o que poderá fazer quando aí chegar. Se iniciar a descida e poisar no chão será pisada, com certeza. É tão pequena que não há nenhum lugar seguro. Olho à volta, à procura de uma solução.

Entretanto, a pequena aranha castanha está quase a atingir o canto boleado da mesa. Tento pensar rápido mas, incrivelmente, ela é mais veloz que eu e está já à beira do abismo. De repente, a porta escancara-se e um cliente entra no café. A suave brisa de Verão aproveita para penetrar no espaço e, gentilmente, eleva o pequeno insecto no ar e leva-o em direcção ao tecto. Sigo-a durante uns segundos mas rapidamente desaparece do meu ângulo de visão. A pequena aranha castanha deve ter vestido a sua capa da cor do vento porque nunca mais a vi.




March 2, 2012

blog postNo Adamastor à noite

A Lua está em quarto minguante e lindíssima. Alumia levemente os rasgos de nuvens que se passeiam aos seus pés e surpreendeu-me, no início da Calçada do Combro, quando me voltei de repente, para procurar qualquer coisa dentro da mala.
 
À noite, é mais difícil passear na cidade e estar-me nas tintas para toda a gente. São poucos os que deambulam sozinhos, como eu. De dia, somos mais. Mas de noite estão todos agrupados em pequenos molhos e conversam animadamente. E riem.
 
Riem. Hoje fez-me falta o riso, vincou-me de dor na sua ausência. Ao descer para o Chiado, forcei o sorriso no rosto e logo senti a sua falsidade. Sinto-a menos agora. Desvaneceu-a o ver dançar, ver Lisboa, ver o Tejo, a ponte, com o seu «colar de pérolas ao pescoço da noite»­, a Lua... A Lua que já não se vê, põe-se cedo quando está em quarto minguante.
 
Arrefece o corpo, falha a tinta na caneta. Já não sinto nas mãos o calor do creme de cogumelos do Quiosque do Resfreco, mas a empada de galinha dentro da mala faz-me adivinhar um prazer desejado...
 
A Lua, afinal, ainda não se pôs. Por momentos, voltou a ver-se, para depois ganhar novamente vergonha atrás das nuvens.
 
1 in Amor dos Babuínos, de Miguel Cardoso Pereira




February 14, 2012

blog postNo Adamastor com música no olhar

Depois de gozar o meu presente de aniversário: um bilhete para o bailado Romeu e Julieta no São Carlos. E com orquestra!, adoro quando há orquestra...

 

Como regente, a portuguesa Joana Carneiro. Brilhante. Dirigia os músicos com uma garra tal que dei muitas vezes por mim a olhar para ela embasbacada, em vez de estar atenta à acção principal que se desenrolava no palco.

 

Cheguei atrasada, claro, tive de assistir à primeira parte de um camarote. O que também foi bom, para ver de cima a coreografia que se compunha no fosso de orquestra. Que delícia apreciar o tremor dos dedos sobre as cordas dos violoncelos, todos ao mesmo tempo, numa brincadeira de perfeita sincronia com os parceiros violinos... E ela era realmente fabulosa, eu estava para ver quando é que enfiava a batuta num olho com o entusiasmo.

 

Muito bom o bailarino que fez o papel de Mercúcio (amigo de Romeu). Grande expressividade, boa técnica. Quando foi agradecer, reconheci-o: era o Carlos Pinillos. Giro como ele só.





January 28, 2012

blog postNo Adamastor

O prado é meu. A cabeça quente do sol, o corpo molhado do suor da relva, os pés ferventes sob o céu que ameaça o Outono. Um jovem casal francês, uma criança pequena e um bebé num carrinho. A mãe lê histórias perante as intermináveis perguntas da rapariguinha. O pai admira os milhares de diamantes que enfeitam o Tejo. Ouço o obturador de uma câmara fotográfica à minha esquerda. Ante tanta beleza, decerto não serei eu o objecto da fotografia.
 
Pai e filha brincam à apanhada.
 
Dois rapazes morenos sonham com o rio. Um, sentado, fuma um cigarro de pensamentos e desilusões. O outro, de pé (ouço um isqueiro atrás de mim), desapareceu já da minha vista (se calhar é de quem fuma aqui atrás).
Deveria ir embora, não quero apanhar um escaldão nos pés.
E agora, ninguém à frente. O prado já não é só meu, mas agora tenho o rio.
 
Cheira a gasolina (e novamente o isqueiro).
Cheira a fruta podre.
 
Mas o Tejo... parece feito de mil diamantes. Um cacilheiro aborda a outra margem. Aposto que, lá dentro, ninguém sequer repara. Os pombos arrulham.
Vejo o rio por entre as pedras e os telhados e as antenas de televisão.
Alunos de fotografia procuram pérolas na paisagem.
Porque sou sempre obrigada a fumar os cigarros dos outros?




January 17, 2012

blog postNo Adamastor

Lisboa é uma cidade maravilhosa. O miradouro do Adamastor é uma mistura de sons com o mar ao fundo numa delícia de céu azul e pôr-do-sol. Hoje, o céu estava lindo. Mais até do que ontem, porque os farrapos de nuvens não tapavam o sol, mas reflectiam os raios vermelhos num incêndio de cor que aquecia o fim de tarde.

Fui ao São Jorge ver um documentário sobre Anna Halprin, bailarina norte-americana do meio do século XX, em muitos aspectos pioneira na dança. Uma mulher que aos 86 anos ainda se mexe com vigor. Uma mulher que pôs pessoas de 95 anos a dançar e a divertir-se. Uma mulher cujo marido lhe construiu um palco de madeira suspenso entre as árvores, ao ar livre, embrenhado na natureza, como a sua dança. Foi fenomenal. Foi fenomenal, porque voltei a sentir a dança como respiração, a dança como água, como ar, como vento. Para Anna Halprin, a dança é a respiração tornada visível, como no próprio título do documentário, Breath made visible.

Como ela, quero dançar livremente, quero ser livre na dança, na vida e no amor. Quero poder sentir livremente, amar livremente, ser livremente. Livremente ser apenas eu. Ter a cabeça livre, sem pensar nas milhentas coisas que poderei dizer ou fazer e simplesmente dizer e fazer as coisas na altura delas sem me preocupar. Sem me pré-ocupar.
 
Raquel Dionísio




January 6, 2012

blog postA ver o pôr-do-sol no Adamastor

A ver o pôr-do-sol no Adamastor.

Cheio de gente, de todas as cores, farpelas e feitios. O melting pot lisboeta concentra-se com vista para o rio. Claro que há sempre um cromo que fala altíssimo e quebra a magia, mas o rio é maior do que ele, o vermelho do céu enche os olhos como os grandes quadros de João Queiroz que nos pesam e tornam leves ao mesmo tempo.

As pessoas não são parvas, as pessoas são interessantes e gostam do ar livre, do rio e do pôr-do-sol, gostam de documentários e de parar nas ruas da cidade à noite. As pessoas não são estúpidas, sabem bem o que sabe a céu nesta vida terrena.

Ver as pessoas a viverem é impagável. Ter a coragem de me juntar a elas é impagável. Impagável.

E estou com uma pedrada de sono que facilmente adormeceria aqui mesmo na relva. E, quando ando pela rua, sinto a tua mão na minha enquanto caminho... A tua boca na minha pele quando estou serena. Fazes-me falta. Quando estou ao pé de ti, sinto-me em casa. Quero ser eu a passar a tarde de sábado contigo no Adamastor. Quero deitar a cabeça no teu colo e sentir nele o meu lar, como sempre acontece.

Nuvens azuis-cinzentas bloqueiam as rosas do céu. As luzes acendem-se no porto. O meu rabo arrefece.




December 27, 2011

blog postPodia ter sido assim

Vê-se que esteve a escovar o longo e ruivo cabelo. Dá agora um toque no batom e prepara-se para servir o último cliente do dia. Coelho-à-caçador, batatas e ervilhas.
Deixa a mala no balcão e segue pelo corredor em direcção ao seu último cliente do dia, aquele que parece não ter controlo sobre as mãos.
Aquele que a olha de soslaio e a segue pela sala.
Aquele que a irrita profundamente.
No caminho, passa por debaixo dessas luzes azuis que servem para electrocutar as moscas. No exacto momento em que está por debaixo dessa arma letal, cai uma redonda e verde mosca no fofo monte de ervilhas do coelho-à-caçador.
Os seus olhos, que seguiram o voo, iluminam-se e uma ruga surge no canto do lábio, desenhando o rascunho de um sorriso.
Pousa o prato na mesa e pede a mala que deixara em cima do balcão. A caminho da porta, vira-se para trás, atirando um beijo à colega que ficava. Nesse exacto momento, os seus olhos encontraram a primeira garfada do último cliente do dia: no meio das frescas e saborosas ervilhas verdes, uma redonda mosca do mesmo verde. Ao sair, o seu sorriso não é apenas um esquisso. É uma obra-prima.






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