30 de Junho de 2013

BAILE DE VERÃO



Estamos em Junho e Lisboa cheira a sardinha assada todos os dias. A música popular – seja ela de marcha ou verdadeiramente pimba – é um burburinho constante nos largos e larguinhos da cidade. Em Junho, somos todos lisboetas.
 
Em Junho, comemos caracóis sem ajuda do palito (eu nunca uso, mas sei de quem só dispensa nesta altura) e sardinhas com a mão, ensopada a gordura que o carvão não queimou numa fatia de pão saloio.
 
Para quem tem um lado brejeiro refinadamente escondido durante o resto do ano, é nesta altura que este se enche de orgulho, incha o peito, e esganiça sem pudor refrões de uma malícia por vezes perturbadora. Por muito jazz e blues que se aprecie, chega-se ao 12 de Junho e ninguém resiste a um bem entoado «Aperta, aperta com ela!», esse magnífico Baile de Verão, nesta noite pela voz do Tópê, com o Sr. Domingos (nem sempre a acertar) nas teclas. E, claro, todos querem saber quem é afinal, e depois de tantos anos, o raio do pai da criança.
 
Antes, sardinhas n’ A Nossa Taska, na Calçada da Bica Grande, a dose devida e mais umas quantas que me caem no prato. Cozidas com casca, as batatas provocam minúsculos orgasmos na língua já deliciada com as opulentas ovas da única sardinha fêmea do jantar.
 
No Largo de Santo Antoninho, o arraial está ao rubro e a multidão entra em delírio quando o Tópê resolve repetir a dose e fazer um encore do refrão do Baile durante dez valentes minutos. E o comboio, o inevitável comboio que atravessa o bailarico, sem incidentes nem vítimas de atropelamento, excepto uma litrosa de proprietário incerto, que, esvaída pela calçada, vê o seu agressor dar de frosques – dir-se-ia com a maior das latas, não fosse a garrafa de vidro.
 
A voz já rouca de tanto acompanhar os peitos d’ A Cabritinha, ganha ainda fôlego para mais um «a Bica é linda!», em que a cerveja ajuda a aclarar o tom, mas não muito, não vá encher-se a bexiga. Porque, nesta noite, o que ninguém pode fazer por nós obriga a uma gincana de cafés, tascos e casas particulares de matronas implacáveis à porta, por vezes, quase impossível de resolver sem ferir as pedras da calçada.
 
No fim da noite, o adeus à cidade é hoje menos doloroso. Porque a Bica é linda, o Bairro Alto encanta e fazem as delícias daqueles que, como eu, podem vivê-los todos os dias.





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