21 de Setembro de 2014

Tudo por arrasto



A Didá é que sabia. Não lhe viessem cá com histórias de que era só a brincar, que ela sempre soube. Alguma vez os Bettencourt ou os Ribeiro da Cunha iriam deixar os filhos deles ouvirem tais coisas? E a dançarem como se estivessem na cubata? E a vestirem aquelas roupas largas e aquela joalharia, que horror, a não ser que fosse carnaval? Então porque é que era a Didá que iria deixar a filha portar-se assim, como se tivesse pata na sanzala. O berço é o berço, quem é bem, é bem, mas é assim que se ganham as alcunhas, e se dependesse dela os seus filhos não iam crescer a chamarem-lhes Brasa, Mokambo e Bolero. É só a brincar, ó mãe, diziam-lhe, é como brincar aos pretinhos. Oiça, então e não havia nada mais terrível para brincar? Qualquer dia é: vamos brincar à sida, ó mãe, ou: vamos brincar aos drogados, ó mãe. Quem é de berço, quem é bem, não brinca com certas coisas, bom, tirando o Bernardo, claro, mas o Bernardo sempre foi um menino rebelde, não foi ele que até andou em Design e o Bernardo Pai sempre a querer dar-lhe um lugar na administração? E também não são três ou quatro mil euros por mês que o menino cheirava pelo nariz acima que fazem mossa aos Sottomayor. Oiça menina, devia ter-lhe dito, está a ver, quando se é de berço, quando se é bem, até, vá, ter um problema de adição pode ser chique, não é para qualquer um, até um dia, quem sabe, pode dar um filme, que até há um senhor que ganha muitos prémios lá fora que farta-se de fazer filmes sobre a droga, mas brincar aos pretinhos tenha lá paciência, esqueça lá isso. Qualquer dia era brincar aos papás e às mamãs, ó mãe vais ter um netinho, ai não me diga uma coisa dessas, menina, e quem é o pai? Ah, o pai é o Makukula ou o Makelele, um deles. Ai era lindo, não era? Vá lá dizer isso ao seu pai, menina, estou mesmo a ver o seu pai: Ah, este é o meu compadre, o Pai Tomás. Está-se mesmo a ver, o Pai Tomás, descalço, na varanda, e os convidados: ah, este é o novo criado, senhor engenheiro? E o senhor engenheiro: Não, este o meu compadre, o avô do Akunamatata, está-se mesmo a ver. Lá tínhamos que ir à clínica dos Arcos, já lá devíamos era ter desconto, com a quantidade de secretárias do teu pai que já lá tiveram que ir, e mais aquela pindérica da Quinta do Lago, e eu a fazer-me de parva, o senhor engenheiro também não a sabe ter dentro da braguilha, é pior que os pretos, lá está! Ai que dor de cabeça que isto me dá, preciso de um vodka para me aclarar as ideias, é isso, um vodka com sumo de laranja, um screwdriver, não é? É isso mesmo, uma chave de fendas que é para os parafusos voltarem ao lugar, que estas coisas deixam-me possessa. Eu devia era ter um barman do Bairro Alto, que até os há jeitosos, sempre ao dispor lá em casa, oiça, quero um scubadiver! Pois, um screwdriver, foi o que eu disse! Ou então podia ser um pretinho de fato e luvas brancas, lá no canto ao pé da garrafeira, que ficam lindos de branco e quando estão no seu lugar.
A Didá já sabia que ia dar confusão, desde o início da brincadeira que já sabia. Os pretos se não fazem na entrada fazem na saída, isso é certo. E então logo ali na Baía, que nunca foi só para gente de bem, infelizmente, mas há limites, e a Didá sempre soube, assim que viu as cartazes soube logo que haver chatice, antes de ver a maré negra já sabia. Não vai para lá, filha, pois não? Ó mãe, é só música. Música? Música na baía é a Nana Mouskuri, ou aquele coro tão bonito dali da linha, ou aqueles meninos, os Delfins, que parecendo que não já não são assim tão meninos, mas também são da linha, sim senhora.
Não, agora acabou-se, vai tudo fora, a roupa larga, o bling-bling, e acabou-se o brincar aos pretinhos, porque primeiro é a música, depois é a maré negra e o arrastão, os pretos se não fazem na entrada, fazem na saída. Vai tudo fora, vai para a Humana, Cáritas, Cooperação para o Desenvolvimento, hoje não é roupa de marca, tenham paciência. Ai, a Didá anda muito étnica, esta roupa que trouxe hoje é muito... diferente, é o que lhe vão dizer, muito... étnica. Pois, já que são sempre 'eles' que recebem a nossa roupa, assim já não vão estranhar, ah ah. É melhor não, que a gentinha que trabalha nestas coisas parece que está lá por obrigação e não tem humor e depois era a Didá é racista e a Didá é xenófoba, e a Didá estava bem era quando havia colónias, que isto de ter humor no trabalho não é para todos, não é como a gente de berço, a gente bem, que quer ajudar os outros organiza um jantar de caridade com os Lyons, e toda a gente sorri e tem humor. E qual era o mal do tempo das colónias, pelo menos antes de virem os comunas não havia cá arrastões, e para os pretinhos tocarem na baía só se fosse trompete e de fato e luvas brancas, que já disse que até ficam bonitos quando estão assim no seu lugar.
A Didá já sabia que ia ser assim o concerto dos pretos na Baía. Já sabia antes de ver nas notícias o arrastão. Arrastão... a ela é que não a levavam nem arrastada a ver os pretos na Baía. Às vezes havia uns pretos que cantavam no Casino, mas aí não havia arrastões nas notícias de última hora, nem os polícias de choque e os repórteres a correrem, e a Baía a parecer o Huambo ou os Bijagós. Os pretos a cantar no casino eram bem, estes eram francamente de mau tom.
 
 
Tentei transcrever o que ia na cabeça da Didá, mas com estas tias da linha não é fácil. Como é óbvio, discordo praticamente de tudo o que ela diz, pensa ou faz.
Mas em duas coisas ela tem razão: há bons barmen no bairro alto e um screwdriver é de facto um vodka com laranja.





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