19 de Maio de 2013

Relatividade



Tanto quanto sabemos, a Terra formou-se há aproximadamente 4,6 mil milhões de anos (criacionistas, podem parar a leitura por aqui). Os primeiros vestígios de seres vivos surgiram há 3,5 mil milhões de anos, mas só com a explosão de vida do Câmbrico, com a invenção do sexo e tudo o que de maravilhoso isso trouxe, e que só por si já justificaria outra crónica, é que o  registo fóssil nos permite ter mais certezas sobre o evoluir dos acontecimentos. Sabemos que no final do Pérmico e no final do Cretácico, respectivamente há 250 e 65 Milhões de anos, duas extinções em massa, talvez resultado do colisão com um asteróide, reduziram drasticamente a quantidade de espécies no planeta. A última destas marcou o fim da era dos dinossauros e libertou espaço para a expansão dos mamíferos sobre os continentes e os mares. Mas foram precisos muitos mais milhares de anos até esses animais placentários cobertos de pêlos e que amamentam as crias evoluírem até chegarmos ao primeiro homem. Bom, chegando a esta espécie é preciso ter cuidado sobre o sentido a que damos à palavra 'evoluir'... Basta estarmos atentos às notícias e ao comportamento dos que nos rodeiam para percebermos que o planeta, e os outros seres vivos discordariam de que a partir deste ponto tenha havido de facto uma 'evolução'. Adiante: chegámos, para o bem e para o mal, ao Homo Sapiens Sapiens, a nossa espécie.
É difícil apreender esta escala de tempo absolutamente transcendente, da mesma forma como é abarcar os muitos biliões de euros necessários para o resgate dos bancos que foram deixados falir, quando se luta todos os meses para pagar a renda de casa. Ou entender a maravilhosa correspondência entre o tempo geológico e os lugares físicos em que estão representados. Quando falamos do Jurássico podemos estar a falar (além do filme de Spielberg) do famoso período em que os maiores animais terrestres de sempre caminhavam no planeta, ou de uma parede rochosa à nossa frente na Lourinhã, ou de outras formações rochosas de onde vieram os calcários que decoram Lisboa, incluindo o chão do bar. Ou seja podemos estar a falar de um espaço ou de um tempo.
Tendo estudado Geologia, seria de esperar que esta compreensão do fogacho que é a nossa breve presença na Terra me fizesse encarar com leveza a passagem do tempo. Afinal o que são 8 horas de trabalho no bar, quando sei que esperei 15 mil milhões de anos, desde o Big Bang, para nascer?
Infelizmente o tempo é relativo e é relativo à nossa escala e aos nossos humores. Toda a gente sabe que o tempo voa quando uma pessoa se diverte, mas o que dizer daqueles dias em que, devido ao clima invernoso, a ainda não ter chegado o dia de pagamento, ou a qualquer acaso inexplicável, o bar permanece desolada e penosamente vazio? Fuma-se um cigarro, bebe-se um shot, preparam-se as bases das caipirinhas, verifica-se o stock pela décima vez, trocam-se histórias, mas entre pessoas que se encontram quase todos os dias há poucas novidades para contar em tanto tempo. Um tempo que custa mesmo a passar. É talvez a componente mais difícil deste trabalho: saber lidar com a espera. Baudelaire achava que sabia o que era o 'ennui' mas se tivesse trabalhado num bar descobriria que ainda não sabia tudo sobre o assunto. As horas passam, lentamente, e começa-se a contagem decrescente para colocar este dia na coluna do 'menos' e ir para casa repousar.
Mas o que é que acontece frequentemente nesses dias? Quando já estamos mentalizados que a noite acabou? Mal sabemos nós que um sinal psíquico parece ser emitido e que simultâneamente, todas as pessoas na rua, qual agentes adormecidos, receberam a missão secreta de se dirigirem para o bar. E em poucos minutos, grupos de 5, 10 ou 20 clientes entram de rompante, pedindo dúzias de bebidas ao mesmo tempo. E como gente chama gente, qualquer pessoa que passe à porta sente uma vontade irresistível de entrar. 
E nós? Bom, o primeiro impulso é pensar "Agora é que aparecem?!? Agora não é preciso, vão se embora!!!" Mas rapidamente, a própria faculdade de pensar perde-se enquanto nos transformamos numa máquina de servir: copo, gelo, copo, garrafa, fatia de limão, copo, imperial, lima, açúcar  shaker, passa-me a garrafa de vodka, ainda há água com gás? copo, garrafa, não é esse copo, gelo, menos gelo, ir buscar gelo, não há copos, ir à mesa buscar copos, falta o pano, limpar as mesas, shots para todos...
E o tempo? Bom, o tal tempo do tédio já lá vai. Não existe tempo, simplesmente. Tempo para um cigarro, uma conversa, para pensar. Até que alguém fecha a porta da rua e apercebemo-nos que são horas de servir a última bebida e fechar a casa. Acabou. Acabou? Acabou! Parar. Um cigarro. Estou aqui outra vez.
E nessa altura, podemos, com o cansaço, baixar os olhos e vermos a tal laje de calcário e pensar nos milhões de anos que demorou a chegar ali... mas temos a certeza que aquela noite demorou ainda mais tempo a passar! 





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