21 de Novembro de 2012

Desligar



Longe de mim querer demonstrar tanta sabedoria neste campo como o meu ilustríssimo homónimo que me antecedeu na República Romana enquanto Cristo dava os seus primeiros passos sobre a Terra. Mas tirando os psicólogos e os melhores amigos, não deve haver alguém que ouça mais desabafos sobre relações colapsadas do que um barman. E não tenho a certeza quanto aos psicólogos. Se a noite é o lugar feliz da celebração, dos excessos e das desinibições que uniram tantos casais, para não falar em casais por um dia, também pode ser o lugar onde se tenta matar a solidão recentemente adquirida com alguns copos de whisky e a palavra amiga de quem os serviu.
Mas muitas vezes, aquilo que é uma noite de descompressão para enfrentar no dia seguinte os problemas com calma, transforma-se num hábito e numa tendência destrutivos. Já a Mariquinhas da Amália dizia que “dar de beber à dor é do melhor”; mas não se for todos os dias. Nesse caso, beber para esquecer torna-se beber para lembrar. E lembrar um passado de mágoas só deveria servir para preparar um futuro sem elas, não para passar uma temporada no Inferno. Porque então, as sensações de tristeza, saudade, remorsos, e de auto-piedade despertam o desejo de beber até se anular, de se anestesiar até deixar de sentir tamanha dor. Infelizmente, com o tempo é a vontade de sentir essa anulação que desperta aquelas sensações, e um ciclo vicioso instala-se.
Como é que eu sei isto? Porque todo barman é um psicólogo, sempre atento à natureza humana e particularmente perspicaz em relação aos padrões de comportamento? Sim, talvez, mas também porque já estive lá, nesse lugar tenebroso.
Como rirmos de nós próprios é um elemento essencial para ultrapassarmos os problemas da vida, costumo dizer nessas alturas que gosto do meu trabalho porque a diferença entre uma pessoa com um desgosto amoroso e um barman com um desgosto amoroso é de cerca de 200 euros por mês que poupamos.
Sim, estar rodeado de bebidas é bom, mas os colegas serem nossos amigos de verdade, num ambiente em que estamos sujeitos a conhecer sempre gente nova, a ouvir e a partilhar tantas experiências, e a descobrir em cada rosto uma razão para seguir em frente, são as coisas mais preciosas desta ocupação. Mesmo que possam ter sido os nossos próprios excessos, as diferenças de horário, e o desgaste das situações mais tensas, factores a que estamos tão expostos, que nos tenham afastado de quem gostamos e levado a este estado de alma.
É por isso, caro leitor, que quando entrar num bar, pedir uma bebida, e quiser desabafar, irá provavelmente encontrar alguém que sabe bem o que está a passar, vai ouvi-lo e, sem o julgar, entender que, às vezes, dar de beber à dor é do melhor. Já dizia a Mariquinhas.





 Comments


 PUBLICIDADE






21 de Setembro de 2014
Tudo por arrasto

18 de Junho de 2014
"22 de Setembro"

3 de Novembro de 2013
UM BANCO NO LARGO DE CAMÕES

30 de Junho de 2013
BAILE DE VERÃO

19 de Maio de 2013
Relatividade

26 de Dezembro de 2012
Dar música

21 de Novembro de 2012
Desligar

23 de Outubro de 2012
Lindo Serviço

30 de Junho de 2012
NO VERTIGO

13 de Junho de 2012
Das boas acções










Home
Night
Eat
Shops
Sleep
People
Blog
Chronicles
Video
Photos
Agenda
Agenda - Week
Info
Chronicles
History
Instagram
About
Bairro das Artes