13 de Junho de 2012

Das boas acções



Já vos contei a história da operação stop? Estava com o Rui, sabem quem é o Rui? O Rui de Geologia, foi meu colega, do Madureira, do Antunes e do Gonças, o Rui que nós chamamos o Barbas, apesar de ele não usar barba há montes de anos. Olhem, o Rui que andava sempre com o Leitão e que tem a casa em Tróia onde fazemos as churrascadas. Esse Rui. Nós, dantes, saíamos muitas vezes à noite, ou melhor, encontrávamo-nos à tarde e depois ficávamos a beber copos até o Rui apanhar o último barco para o Barreiro. Esse era sempre um momento de stress, como ele dizia “porque se um gajo perde o último barco tem que ficar por ali a fazer horas até ao primeiro barco, de madrugada”. E, se na altura, está toda a gente disposta a ficar e a beber mais um copo, o facto é que as horas vão passando, o corpo amolece, o cansaço instala-se e depois é tudo: “é pá, ó Rui, tenho que ir para casa…” e lá fica o pobre desgraçado a dormir sozinho nos bancos da Transtejo à espera de Godot, que bem podia haver um cacilheiro com esse nome.

Bom, para eu e o Rui estarmos a beber copos desde a tarde já podem imaginar o estado ébrio em que nos encontrávamos… e ainda por cima tive nessa noite a ideia de o levar comigo num giro pelo Bairro Alto. Eu já trabalhava como barman no Bairro, e em muitos sítios fomos recebidos com uma rodada de shots, oferta da casa. E para não parecer que íamos só para o cravanço, normalmente pedíamos depois uma cerveja para cada um. Por esta altura já precisávamos tanto de shots e de imperiais como de um tiro na cabeça, mas a embriaguez empurrou-nos para 4 ou 5 casas onde o ritual se repetiu, deixando-nos completamente alcoolizados. Bêbados. Bezanas. Com uma narsa descomunal, uma carraspana de proporções épicas, ou bíblicas, se quiserem, porque isso de transformar a água em vinho também tem que se lhe diga.

Então qual é a boa acção nesta história, perguntam vocês? Embriagar o amigo com shots? Calma, já lá vamos. Bom, foi assim mais para lá do que para cá que chegámos à hora fatídica, a hora do sinal de alarme que arrasta o meu amigo encosta abaixo até apanhar à angente a última galera. Com uma boa meia-hora de avanço, o Rui lá me foi avisando para deixar as conversas com os muitos conhecidos que ia encontrando, e que o vapores etílicos transformavam em velhos amigos com quem era urgente conversar. Mais um beijinho aqui e um abraço ali, e dou por mim pronto a descer do Bairro Alto com o meu companheiro de noitada, apenas para o encontrar de semblante triste e desapontado: “Vês, eu disse-te, eu pedi-te tanto para te despachares; agora perdi  o barco…”

Se há coisa que não falta a um homem alcoolizado é coragem e ideias, o que normalmente é a fórmula perfeita para o desastre. Consumido pelos remorsos pelo que o meu lado de animal social tinha causado ao Rui, e sabendo que não aguentaríamos aquele ritmo até de madrugada, foi aqui neste preciso momento que deu-me para fazer a tal boa acção: propus-me levar o meu amigo de carro ao Barreiro. O facto de estarmos bêbados que nem um cacho não seria impedimento para o compensar por ter perdido o barco. Não sei se já conduziram com uma taxa de álcool no sangue acima do permitido, mas na altura era muito frequente dar por mim com um copo a mais e mesmo assim arriscar-me a trazer o carro para casa. Era jovem, inconsequente, audaz. Parvo, pronto. Apesar disso nunca fui mandado parar para soprar no balão, o que dava-me uma mítica aura de invulnerabilidade entre os meus amigos. Dava.

A viagem estava a correr muito bem, apesar do número invulgar de polícias na estrada, que me deveria ter incutido algum juízo e feito abortar a missão, se a minha preocupação na altura não fosse parar numa roulotte para comprar… adivinhem… exacto, ainda mais cerveja.

Íamos assim, pela 24 de Julho, e depois virámos para a Av. de Ceuta, sabem, a avenida grande que vai dar à Praça de Espanha. Só que ali ao fundo, na parte em que se faz a inversão de marcha para entrar na ponte, só víamos luzes e holofotes e sirenes e bastões luminosos e ai Jesus, mãezinha, socorro, adeus. Estava ali a mãe de todas as operações stop, ali ao fundo e nós lenta mas inexoravelmente a rodar na sua direcção, sem apelo e sem saída.

“Sem saída”?!? Não! “Rui, não há uma cortada aqui à direita que vai dar ao Casal Ventoso? Podemos fintar estes gajos!!!!” O Rui nem respondeu, o estupor alcoólico somado ao choque do martírio que se adivinhava tinha transformado o seu semblante numa máscara de cera branca sem emoção. Animado pela minha ideia, mais uma na longa lista de boas ideias dessa noite, acelerei e deparei com a cortada de que me lembrava. De cada lado dessa rua estava um polícia com os seus bastões luminosos a indicarem a direcção em frente aos automobilistas que passavam. Mas eu não era como os outros. Não, a mim, não me apanhariam. À medida que me encostei à direita, e que a cortada se aproximava, os gestos dos polícias tornaram-se mais frenéticos e ouvia dizer “Em frente, em frente…” – “Em frente o caraças, a mim não me apanham”; acelerei ainda mais, guinei para a direita, passei entre eles rumo à cortada que subia para o Casal Ventoso, para a liberdade, para casa, e para celebrar ainda mais a minha agilidade, esperteza e impunidade, pus a cabeça de fora do vidro aberto, brindei a eles com a cerveja na mão e gritei bem alto: “So long, suckers!!!!!”

Epílogo:

Existe de facto uma cortada que sobe da avenida de Ceuta até ao Casal Ventoso, mas, como é óbvio, fica bem depois da operação stop. Aquela rua onde me meti era apenas um parque de estacionamento que terminava, 50 metros à frente, num acesso fechado com portões trancados a cadeado. E foi aí que preparei o meu melhor sorriso para receber os polícias que se aproximavam. Mas eles não vinham a sorrir.

O Rui também não estava a sorrir. Acabou por apanhar o primeiro barco, e ainda por cima porque ficámos na esquadra até de madrugada. Ofereceu-se para pagar metade da multa, é certo, mas desconfio que não foi a melhor noite da sua vida. E eu? E a minha boa acção? É verdade o que dizem: nenhuma boa acção fica sem castigo.





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