1 de Maio de 2012

UMA NOITE NA CASA DO PÁTIO – PARTE I (A CHEGADA)



Subo ansiosa as escadinhas da Calçada do Carmo e continuo depois até ao Chiado, espetando o queixo no ar aqui e ali perante os magníficos e intemporais edifícios deste bairro, que sempre me surpreendem. Um pulinho pela Rua do Loreto e estou no Adamastor, esse local de mil sorrisos, onde retorno como quem regressa a um lar de calor e saudade. Fim de tarde, cheio de gente, como flores em pequenos molhos pela relva, pelos bancos, pelo chão. Litrosas, livros de lombadas volumosas, dedos que enrolam gulosas mortalhas umas atrás das outras... O Sol põe-se e a ansiedade acalma. Desta vez, venho para ficar.
Chego à Casa do Pátio como uma menina pequena no primeiro dia de escola e sou muitíssimo bem recebida pelo sorriso do João, lisboeta de origens beiroas, numa sala que é uma carícia no rosto de quem entra. Mobilada em madeira, chama a atenção um móvel de tipógrafo, forrado a mapas, guias e livros antigos de exercícios de francês, que o João mostra com orgulho, e logo me convida a sentar para o check-in personalizado com que recebem todos os hóspedes.
Aqui, quem vem traz uma história que os que cá estão querem sempre ouvir. Quem chega sente a surpresa de ser logo tratado pelo seu nome e, entre a conversa de boas-vindas e as partilhas ao pequeno-almoço, aperta-se o abraço desta casa que nos acolhe como família. «Não é um quarto, são pessoas», diz o João. E para qualquer coisa que seja precisa: «Nós estamos sempre cá.»
Uma chaleira aquece a água para o meu chá de menta numa recepção que, desta feita, é em português. Em cima da mesa, mapas e mapinhas de Lisboa, namoramos a cidade no papel. Santa Catarina, o Bairro Alto, a vista do Elevador da Bica, o Largo de Camões, o Quiosque do Refresco, A Brasileira, A Vida Portuguesa... Uma subida ao último andar dos hotéis Regency e Bairro Alto, pelo que o olhar alcança, uma viagem no Elevador de Santa Justa, uma ginjinha no Rossio, um jantar do outro lado do rio para ver Lisboa inteira de fora... O Miradouro de Santa Luzia, com o seu painel de azulejos, o Miradouro da Graça, a Feira da Ladra, Alfama... Para meu espanto, uma visita à cave do MUDE, na Rua Augusta, onde ainda se encontram os cofres originais do Banco Nacional Ultramarino, e outra ao nono andar da Pollux, na Rua dos Fanqueiros, para olhar nos olhos o Convento do Carmo e soprar sobre os telhados da Baixa.
Finalmente, o meu quarto. Ribatejo, nome de região vinícola, como todos os outros da Casa do Pátio. Um quarto numa água-furtada! Adoro águas-furtadas, como promessas vaidosas no topo dos edifícios. Hoje, vou poder ver o lado de dentro! Mal subo ao quarto, fico com vontade de dormir nele durante uma semana. O branco da cama contrasta com o padrão escuro e pesado das cortinas que prometem descanso, os tectos inclinados acolhem-me num lar de tranquilidade imediata. O Inverno, que ainda é quando escrevo, fica lá em baixo. Aqui, cheira a essência de morango.
 
 





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