11 de Maio de 2012

Uma noite na Casa do Pátio – parte II (o jantar)



Depois de conhecer aquela delícia de quarto, e desejosa agora de outro tipo de delícias, dirijo-me ao Bairro Alto para a refeição prometida n’O Cantinho das Gáveas.

Do Largo de Camões (que poucos conhecem como praça, apesar de ser o que está escrito nas placas), são três minutos até ao 82 da Rua das Gáveas, ainda vazio. É cedo, passeio-me então pela Rua da Misericórdia, cujos edifícios não me canso de admirar, até ao largo que julgava ser-lhe homónimo, e que afinal se chama Trindade Coelho. No regresso pela Travessa do Poço da Cidade, abrando o passo: um respeitável senhor de idade faz de retrete a parede contígua à esquina do restaurante. Que agradável. Manchas de alívio e de preguiça que as paredes do Bairro Alto conhecem tão bem...

Sou a primeira a chegar ao restaurante, que entretanto começa a encher-se de vozes e sotaques além-fronteiras. Mesas de madeira escura com tampos de pedra rosada e caminhos de mesa aos quadrados brancos e azuis guardam com orgulho milhares de horas de conversa à refeição.

O serviço é de uma gentileza das antigas. Para entrada, o creme de marisco. Demasiado apurado para mim, mas com a vantagem de aumentar a avidez na procura do vinho verde da casa, por sinal bastante razoável. Numa mesa à minha direita, um casal divide uma salada de polvo e um jarrinho de vinho branco. Ele fala português, mas comunicam agora numa língua que não consigo identificar. Atrás de mim, mistura-se o inglês com o espanhol em torno das inquestionáveis imperiais. Ao fundo, dois rapazes, uma água e um jarrinho de vinho tinto. Mal acabo de comer a sopa, entram duas portuguesas. Até agora, somos as únicas.

Para prato principal, peixe grelhado? Arrozada de bacalhau e gambas? Secretos de porco? Chama-me a atenção o arroz de peixe com gambas que, pouco depois à minha frente num tachinho de metal, conquista o olhar no levantar da tampa. Gambas, salmão, espadarte e polvo: olho para o tacho com pena, não serei capaz de comer tudo.

Mais dois rapazes, portugueses. A quota de ocupação nacional compõe-se. Enquanto um vai à casa-de-banho, o outro atira-se ao pão e à manteiga, antes sequer de abrir a lista. E o queijinho curado, como recusar?

– Está muito saboroso – ouço atrás de mim. (Só não consigo ver o quê.)

O meu prato, esse, está óptimo.

– Chega? – pergunta-me o Sr. Ernesto.

– Chega e sobra! – digo eu, mas afinal duvido de que sobre mesmo.

– Coma o peixe, deixe o arroz – aconselha-me.

Parece-me que os daqui do lado estão a comer os secretos, acompanhados de batatas fritas às rodelas, daquelas como deve ser. E saem mais duas imperiais.

Os que chegaram logo depois de mim arrumam os talheres e saem enfim do restaurante. Admirar-me-ia se fosse eu a primeira a fazê-lo. Estou ainda de prato à frente, isto é mesmo bom. E eis que entra uma cara conhecida, como sempre é de esperar nesta grande aldeia de cidade qual enorme novelo de um só fio.

Dentro daquela minha teoria de que o mais importante na vida são não só as pessoas, mas também os lugares, chego agora à conclusão de que o Bairro Alto (e toda a sétima colina) é um desses lugares. Quando por cá ando, o olhar sorri, sempre.

Acabei de comer! Os últimos estrangeiros abandonam o recinto. Somos só tugas agora. Já passa das dez e estou ansiosa por voltar ao quarto que só é meu por uma noite.

– Não quer café? Nem um bagaço? – Não quero mais nada, estou satisfeita.

No balcão, toca um telefone:

– Estou, sim, boa noite, restaurante Cantinho das Gáveas, tenha a bondade.

Uma gentileza das antigas.

 





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