9 de Abril de 2012

Minúscula aranha com porte



Levanto os olhos do jornal e reparo no tampo da mesa de café de um castanho claro, raiado por imperceptíveis linhas brancas. Fixo o olhar numa impureza que parece voar com o impulso da brisa de Verão, que entra pela porta entreaberta. Porém, não voa apenas, também anda. Vejo com maior atenção e verifico que se trata, afinal, de uma pequena aranha. Pequena? Que digo eu?! Minúscula! É uma minúscula aranha exactamente da mesma cor que a mesa de café. Parece ser um filhote de aranha de uma raça já de si mínima. Não lhe consigo ver a cara. Ou o focinho. Ou o que quer que segure aqueles enormes olhos de aranha num corpo minúsculo. Aliás, não consigo ver nada, a não ser o que parece ser um pequeno grão de areia com oito patas. Não as conto, sei apenas que as aranhas – minúsculas ou não – têm oito patas. Sigo-a e procuro colocar-me no seu lugar. Aquela enorme mesa parece ter degraus intermináveis, que se transformam em obstáculos quase intransponíveis. Digo quase, uma vez que ela os transpõe com extrema graça e leveza.

No que deve ter sido um minuto, atravessou a mesa de café. Afasto com cuidado as folhas do jornal, para não provocar uma ventania.

Continuo a fixá-la embora, por vezes, tenha de piscar os olhos para voltar a vê-la pois, de tão pequena que é, confunde-se com a mesa. Atravessa-a e começa a aproximar-se perigosamente do seu fim. Não sei o que poderá fazer quando aí chegar. Se iniciar a descida e poisar no chão será pisada, com certeza. É tão pequena que não há nenhum lugar seguro. Olho à volta, à procura de uma solução.

Entretanto, a pequena aranha castanha está quase a atingir o canto boleado da mesa. Tento pensar rápido mas, incrivelmente, ela é mais veloz que eu e está já à beira do abismo. De repente, a porta escancara-se e um cliente entra no café. A suave brisa de Verão aproveita para penetrar no espaço e, gentilmente, eleva o pequeno insecto no ar e leva-o em direcção ao tecto. Sigo-a durante uns segundos mas rapidamente desaparece do meu ângulo de visão. A pequena aranha castanha deve ter vestido a sua capa da cor do vento porque nunca mais a vi.





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