Fui um dos primeiros museus de arte contemporânea a ser criado em todo
o mundo, fundado por decreto-lei da República de 26 de Maio de 1911. Nascido
da divisão dos acervos do antigo Museu Nacional de Belas-Artes, de que
herdei todas as obras posteriores a 1850, data que de acordo com a
crítica coeva, constituía a charneira cronológica da modernidade, fui
instalado provisoriamente no Convento de S. Francisco, em espaço
contíguo à Academia de Belas Artes, ocupando os antigos salões onde as
exposições dos românticos e naturalistas haviam tido lugar, em pleno
Chiado, espaço frequentado pelas tertúlias das gerações que aqui se
encontravam representadas. Localização simultaneamente oportuna e
simbólica, esta dupla circunstância acabou por determinar a confirmação
da minha localização neste espaço, definitivamente consagrada com a
minha reinauguração em 1994, integralmente renovado sob projecto da
autoria do arquitecto francês Jean-Michel Wilmotte na sequência do
trágico incêndio que em 1988 afectou a zona do Chiado. Integro uma
importante e significativa colecção, representativa da complexidade e
diversidade dos movimentos e práticas artísticas nacionais desde 1850
aos nossos dias, honrando os pressupostos que estiveram presentes na
minha fundação e mantendo-me dinamicamente comprometido com o presente
e com o futuro.
Arte Portuguesa do século XX (1960-2010) completa o ciclo de três
exposições da colecção do Museu Nacional de Arte Contemporânea – Museu
do Chiado, iniciado em Abril de 2011, para comemorar os 100 anos de
existência desta instituição.
Ao percorrer o último meio século da história da arte portuguesa,
esta exposição revela também, necessariamente, as vicissitudes de
funcionamento do próprio Museu, alternando momentos de proximidade e de
alheamento relativamente ao pensamento e à construção estética da
contemporaneidade.
Se, durante a direcção de Diogo de Macedo (1944-59), o MNAC
conseguira manter algum dinamismo, a nomeação política de Eduardo Malta
como director (1959-67) irá condenar o museu a um período de retrocesso
cultural, decadência e isolamento, que terá um caricatural epílogo
quando a sua mulher, Dulce Malta, assume interinamente o lugar
(1967-70).
Embora a direcção de Maria de Lourdes Bártholo (1970-87) tenha sido
mais favorável à abertura do acervo a propostas contemporâneas,
incorporando algumas obras de artistas de referência (como Jorge Vieira e
Paula Rego), o MNAC continua a não conseguir acompanhar as dinâmicas
culturais desencadeadas com a Revolução de 1974, assistindo-se a uma
progressiva degradação das instalações, que obrigaria ao seu
encerramento em 1987.
Entre 1988 e 1994, o MNAC passa por um processo de reorganização
global, segundo projecto do arquitecto francês Jean–Michel Wilmotte,
reabrindo ao público sob a direcção de Raquel Henriques da Silva
(1988-98), com a designação de Museu do Chiado. Inaugura-se, então, um
processo de renovação programática do museu, conciliando o estudo e a
divulgação do acervo com a produção regular de exposições temporárias e
de qualificadas publicações, com um enquadramento internacional que será
ampliado durante a direcção de Pedro Lapa (1998-2009). Paralelamente, a
colecção conhece uma actualização sem precedentes, passando a abranger a
segunda metade do século XX e a incluir novas tipologias artísticas,
como a fotografia e o vídeo.
Perante a descontinuidade do investimento público em aquisições para a
colecção do MNAC, as doações e depósitos de artistas, instituições e
coleccionadores particulares assumiram um papel fundamental, na medida
em que permitiram enriquecer núcleos mais recentes da colecção, com a
integração de artistas incontornáveis no panorama da arte portuguesa da
actualidade.
Ao longo de quase duas décadas de intensa actividade e actualização, o
MNAC – Museu do Chiado continua a debater-se com os principais
constrangimentos identificados desde a sua fundação, em 1911: a
insuficiência de espaço e de recursos materiais para continuar a
conservar, expor e ampliar a mais abrangente colecção de arte portuguesa
moderna e contemporânea.
O filme Against Death foi concebido por Clemens von Wedemeyer como
parte integrante do projecto The Fourth Wall (2008-2010), cujo título
remete para o conceito de “quarta parede” - um muro virtual entre a
plateia e o palco ou, num sentido mais abrangente, entre o espectador e a
dimensão ficcional do teatro, do cinema ou do vídeo. Quando
apresentado em conjunto com as restantes obras que integram o projecto,
Against Death surge no final do percurso expositivo, assumindo a
condição de epílogo, embora também possa funcionar como uma instalação
autónoma. Talvez por isso, constitui um notável momento de síntese e de
sublimação de um longo processo de investigação sobre o paradigma
antropológico de “contaminação cultural”, associado ao contacto entre
comunidades indígenas e a civilização ocidental. Na montagem de
Against Death na Sala Polivalente do MNAC – Museu do Chiado, Clemens von
Wedemeyer integra ainda outros dois elementos, para uma
contextualização mais aprofundada do projecto The Fourth Wall, realizado
no Barbican Centre, em Londres: a entrevista a Geoffrey Frand - How to
Deal With the Uncontacted? (2009) e o jornal First Contact. Ao
confrontar-se com estas pistas de leitura, o espectador tende a inverter
a comum dicotomia civilização/selvagem, perante a presumível dissolução
do antagonismo entre as culturas do passado e a contemporaneidade. O
filme propõe uma narrativa circular, em torno do diálogo entre um
antropólogo e um explorador, que procura demonstrar como se tornou
imortal, depois de ter participado num estranho ritual indígena. Mas se,
no final, a teatralidade do suicídio encenado parece dissipar a
ambiguidade entre documentário e ficção, rapidamente a dúvida se
reinstala, porque a narrativa recomeça no exacto ponto em que terminara,
e a conversa recomeça novamente… Clemens von Wedemeyer confirma,
assim, um dos aspectos mais consistentes da sua produção fílmica: a
apropriação de recursos intrinsecamente cinemáticos - como o loop – para
construir um discurso que explora a barreira invisível entre a ficção
do cinema e a realidade física e cultural do observador.
Helena Barranha e Joachim Bernauer
No âmbito desta exposição no MNAC-Museu do Chiado, o artista
dará uma conferência no dia 11 de Junho, às 19h00, no Instituto Goethe
de Lisboa, onde contextualizará o filme Against Death no projecto The
Fourth Wall, explicando a sua abordagem de temas relacionados com a
Antropologia, o Teatro e o Cinema. Na conferência serão apresentados os
filmes "Found Footage" (2008-2009), 30min, "The Gentle Ones", (2009), 28
min.